Tuesday, August 22, 2006

Da “artisticidade” da Arte Seqüencial

Faz tempo que estou para postar nesse blog, mas a preguiça sempre me impedia. Hoje resolvi postar, por sugestão do senhor Mario Cau, numa breve conversa que tivemos hoje no ponto de ônibus, logo após nossa aula de Semiótica. Antes de mais nada queria pedir desculpas pelo tom pedante do texto, dizer que ficarei devendo a explicação sobre quadrinhos progressivos ao Valter, e desculpas também pelo título infame. E como é bom poder escrever sem se preocupar com referências, bibliografia, citações, e outras masturbações acadêmicas.


Este texto é uma pretensiosa tentativa de estruturar algumas das minhas idéias sobre o que Will Eisner chamava de Arte Seqüencial, embora eu discorde do termo. Eisner talvez tenha sido o primeiro a teorizar seriamente sobre as possibilidades quase ilimitadas das histórias em quadrinhos enquanto meio de expressão autônomo, além daquelas à que o senso comum normalmente atribui, ou seja, entretenimento barato, efêmero, e desprovido de qualquer qualidade. Já Scott McCloud, no seu excelente “Desvendando os Quadrinhos”, argumenta que a humanidade sempre fez uso de narrativas seqüenciadas desde os primórdios da linguagem (inclusive antes da escrita; esta própria surge de desenhos dispostos numa certa estrutura seqüencial). Estritamente falando, as histórias em quadrinhos da maneira que conhecemos hoje, surgem no final do século XIX, mas desde então, e durante a maior parte do século XX, permaneceram vinculadas aos meios de comunicação de massa e ao público infantil. Mesmo que as idéias de Eisner fossem anteriores, creio que foi só nos anos 80, com o surgimento de grandes desenhistas e escritores, e a conseqüente adoção de temáticas mais avançadas, que começou a haver um refinamento do meio, e uma questão começava a se colocar com mais força: quadrinhos é arte?
A questão é complexa. Nos últimos tempos dediquei uma parcela considerável das minhas divagações inúteis ao assunto, mas acho que agora, posso emitir uma opinião, mesmo que superficial. Num primeiro momento, pensei ser impossível resolver o problema, porque para definir se algo é arte, teria que saber definir primeiro o que é arte. Tarefa árdua, na qual a preguiça me impedia de prosseguir. Segundo a eminente Professora Doutora Regina Johas, docente da cadeira de Escultura do igualmente eminente Departamento de Artes Plásticas da Unicamp, em conversa com nosso amigo Mario Cau, história em quadrinhos não seria arte, “porque senão vira aquilo: tudo é arte, nada é arte...”. Bem, diante de argumentos tão, digamos, “incontestáveis”, não houve como discutir. A referida docente, no entanto, teve um lampejo de lucidez ao oferecer um ponto de partida para o entendimento desse ente indefinível que é a arte. Disse ela: “há um sistema que engloba todas as pessoas envolvidas com a arte, formado por críticos, historiadores, curadores, o público (do que se constitui esse público já é uma outra história) e também os próprios artistas (por incrível que pareça!) que determina o que será e o que não será definido como arte”. Faz sentido. Bom, se arte é isso, se funciona assim, então quadrinhos não são arte, afinal. Naquele momento, me convenci disso.
Só tem um problema nessa história (talvez haja outros). O sistema descrito funciona somente no âmbito das Artes Visuais. Ora, Eisner já disse que a linguagem dos quadrinhos só se configura na relação dialética (que bunito isso!) entre as imagens e o texto. A autora Lúcia Santaella denomina isso de mídia interssemiótica, ou algo parecido. Embora ao longo do tempo tenham se apropriado de elementos e soluções do desenho, da pintura, e talvez da gravura (se pensarmos que a margem de ação dos desenhistas sempre esteve limitada pelo avanço técnico dos meio de impressão), a hq não sobrevive sem o texto, sem a narrativa, mesmo contando com o caso de uma história sem texto evidente, ou seja, escrito para o leitor nos balões e recordatórios, ele está lá, implícito na narrativa, na seqüência lógica das imagens. Um outro exemplo de mídia interssemiótica (de fato, não tenho certeza se o nome é esse, corrigirei em outro post; de qualquer forma é algo do gênero, quer dizer uma mídia formada hibridamente por vários tipos diferentes de signos) é o cinema: ora, o cinema não pode ser classificado como fotografia, teatro, literatura, etc, embora utilize elementos de todos. Mesmo assim existe, como meio de expressão autônomo. Assim são os quadrinhos.
O grande problema no caso dos quadrinhos, é que talvez eles ainda não tenham atingido sua maioridade estilística, e nem sejam, de fato, grande o número de obras de qualidade que possam ser reconhecidas como verdadeiras “obras de arte”. Mas como negar o valor de obras como Watchmen e Lobo Solitário (para que o Valter não diga que eu sou tiete de um certo pintor/ilustrador, não citarei aqui obras do mesmo), só para citar dois exemplos. Independente do fato das “gigantes” americanas do gênero persistirem no lado comercial da coisa, em escritores estúpidos e desenhistas retardados (se bem que tenho visto coisas interessantes ultimamente...), há, principalmente nas livrarias, uma quantidade enorme de obras de qualidade, que não podem ficar simplesmente no âmbito da diversão de massa. E mesmo que tudo que eu disse aqui seja uma grande bobagem (é possível...), não há nada de desmerecedor também em não ser arte, isso não é indicativo de nada.

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